FÁTIMA: HISTÓRIA E BOA NOVA.

        Era um bucólico vilarejo português. Os pássaros voavam procurando algum galho para fazer o ninho enquanto três crianças levavam algumas ovelhas pelo pasto. O céu estava aberto, límpido. O que poderia acontecer? Talvez alguém inventasse alguma brincadeira nova ou tivesse a ideia de visitar os parreirais, mas era meio-dia: a hora de rezar o terço. Porém, aquela cena inocente do cotidiano iria ser envolvida por um acontecimento incomum: Um anjo lhes aparece. Ora pois! Era o anjo de Portugal! Veio trazer um pedido do céu e lhes preparar para uma visita ainda mais ilustre.

        Qual seria o seu motivo? A Europa estava em guerra: No final do século XIX, o Neocolonialismo (Fenômeno político que aconteceu quando alguns países europeus investiram na formação de novas colônias na África e na Ásia de olho na riqueza de matéria-prima que aquelas áreas continham) deixava de lado países como a Alemanha e Itália enquanto a França e Inglaterra só cresciam. Já o início do século XX foi marcado por uma forte concorrência comercial entre os países europeus que logo evoluiu para uma corrida de interesses e por fim, numa pressa por adquirir armas, em nome da defesa contra os vizinhos concorrentes.
        O Clima era acirrado: imperava uma disputa de todos contra todos. Para piorar, na França existia um certo sentimento de revanche contra a Alemanha visando retomar territórios perdidos em guerras anteriores, ao mesmo tempo em que os alemães queriam reunir em seu território todos os países de origem germânica. Logo, a primeira guerra mundial chegaria, em 1910, arrasando cidades e plantações inteiras, causando uma pobreza desoladora e um prejuízo de 10 milhões de mortos e o triplo de feridos.
        Já Portugal vivia com uma economia fracassada e com uma rotina de atentados que visavam derrubar o Rei, situação que piorou ainda mais quando o país entrou na grande guerra. Em 5 de maio de 1910, O Império português foi abolido e em seu lugar surge a República carregada de um secularismo radical e autoritário que, em nome da liberdade e do progresso, saqueou Igrejas e mosteiros, interviu em seminários, nomeando professores, e até a celebração pública de festas religiosas havia sido suprimida. O Objetivo era abolir o catolicismo em Portugal por considerá-lo ser um empecilho para o verdadeiro progresso do país.
        Um outro fato importante para compreender a mensagem de Fátima foi a Revolução Russa, de 1917: A Rússia, um país extremamente dependente da agricultura e que mantinha os seus trabalhadores na extrema pobreza por causa da cobrança exorbitante de impostos, começa a se agitar em torno da derrubada do governo absolutista. Passa-se do Império dos Czares à Duma, um governo provisório que é derrubado pouco tempo depois pelo partido bolchevique, liderado por Lênin, impondo, sob a justificativa de redimir a classe dos trabalhadores, o Regime socialista soviético, que, na prática, manteve o povo em seu estado de miséria sendo tão totalitário quanto o Czarismo e até pior: retirando as liberdades individuais inclusive a liberdade religiosa.


A mensagem do Anjo
        Em 1916, um anjo aparece às três crianças naquele lugarejo distante de tantos conflitos. Jacinta, Francisco e Lucia não são crianças ricas, mas, na sua simplicidade e pobreza são o depósito de uma mensagem que evoca o desejo ardente de Deus pela nossa salvação. O anjo, portador desta mensagem, vai ao encontro deles por três vezes: Na primeira, na primavera daquele ano, ele ensina os pastorzinhos a rezarem uma jaculatória:
        “Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam, e não vos amam”


        No Verão daquele ano, que no hemisfério norte acontece em meados de Junho a agosto, o anjo lhes aparece novamente:
        “Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo orações e sacrifícios.”


        E no outono, mais uma aparição. Desta vez o anjo faz uma oração com uma referência direta à Eucaristia:
        “Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, adoro-Vos profundamente e ofereço-Vos o Preciosismo Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os Sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.”


        Tendo em vista o contexto histórico que vimos anteriormente, podemos entender muito bem a mensagem do Anjo: o mundo vivia em conflitos e revoluções que tinham por objetivo não o bem dos homens, mas a luta pelo poder e a recusa explícita de Deus. Eram lutas motivadas pelas cegueiras ideológicas e não pela paz verdadeira. Daí o seu apelo à conversão e à misericórdia divina. Em especial, Francisco, Jacinta e Lúcia são chamados a viverem fora dessa lógica destrutiva abraçando um caminho de humildade e mansidão que brota do cultivo da intimidade divina.

A Mensagem de Fátima.
        No ano seguinte, no dia 13 de maio, aquela catequese divina continuaria, mas desta vez através da própria Cheia de Graça. Maria, a mãe de Jesus, apresenta-se como uma jovem vestida de branco que convida a um encontro. Ali, em todo dia 13 até o mês de Outubro, a Cova da Iria se transformaria num lugar de discipulado que despertaria a esperança da vida naquele momento terrível da humanidade. O primeiro encontro é marcado por um convite: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”. A resposta daquelas crianças foi um Sim convicto, e seu efeito foi uma grande consolação em meio a tantas dúvidas.
        O segundo encontro revela o pesar de Deus pela situação em que os homens se encontram, simbolizado pelo Imaculado Coração de Maria, cheio de dores. O mês seguinte é marcado pela presença de uma pequena multidão, de 4000 a 5000 pessoas, onde, às três crianças é apresentando o efeito do mal em sua perspectiva escatológica, o inferno, e a imagem da Igreja que deve perseverar na fé neste mundo, testemunhando a salvação até as últimas consequências. É naquela ocasião que Nossa Senhora pediu a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração, uma referência direta ao erro de construir uma nação somente sob uma perspectiva materialista, assim como vimos acima. Tal erro insiste em negar aos homens a sua transcendência, retirando-lhes a sua autêntica liberdade. Em Agosto daquele ano, com a presença de mais de 15000 pessoas, Maria insiste no valor da oração, principalmente na recitação do rosário, apontando tal prática como caminho de superação de todo o mal, convite que é refeito no mês seguinte.
        Finalmente, na sexta aparição, em outubro, acontece o chamado “Milagre do Sol” diante de uma multidão de 70 mil pessoas: Os pastorzinhos veem a sagrada família, ao lado do sol, onde o próprio Cristo abençoa o Povo. Ali os corações se renovam de esperança que se alicerça no triunfo do Imaculado Coração sobre tantos sistemas enfadonhos que insistem em alienar os seres humanos de sua verdadeira dignidade.
        

        Considerando tudo isso, devemos entender a mensagem de Fátima dentro da perspectiva da esperança. Em meio a tantos dramas humanos, Deus não está indiferente e nos apela a encontrar nele a solução. De fato, não há nada ali que contradiga o Evangelho. Ao contrário: Apenas reforça e anima a Igreja a prosseguir anunciando a boa nova de Cristo a todo o mundo, sendo no encontro com Cristo o lugar motivador, o motor da construção do Reino de Deus em nosso meio. É verdade que por aqui ele nunca será pleno, mas não quer dizer que ele seja impossível. Conversão e penitência ainda nos são necessários para fazê-lo aparecer. Insistamos! Vamos nos aproximar de Maria: ela que é lugar de encontro com Jesus nos ensinará a imitá-lo para remediarmos as feridas e doenças que encontramos em nosso cotidiano.

Gustavo Munhoz

Gustavo, é seminarista da nossa Diocese de São José dos Campos. Está no 3º ano de Teologia e atualmente exerce os trabalhos pastorais na Paróquia Nossa Senhora da Santíssima Trindade.

Gustavo Munhoz